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The plague, Siberia and the apocalypse

Published 14 Oct 2026 · Discovered 14 Oct, 19:17 UTC · Original language: pt · Version 4

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“The fear, not the disease, threatened to break the society apart.” – John M. Barry, The Great Influenza: The Story of the Deadliest Pandemic in History (2004)

A humanidade moderna possui um talento extraordinário para duas actividades aparentemente contraditórias. Por um lado, ignora solenemente os perigos reais que enfrenta todos os dias. Por outro, corre em círculos ao mais leve indício de uma catástrofe potencial.

Um cidadão comum atravessa distraidamente uma passadeira olhando para o telemóvel, consome alimentos processados como se fossem património da humanidade e dorme sistematicamente quatro horas por noite. Contudo, basta surgir a palavra “peste” associada à Sibéria para se imaginar imediatamente uma versão actualizada da Idade Média, desta vez com ligação à internet e comentários em tempo real nas redes sociais.

Foi precisamente isso que aconteceu quando surgiu a notícia da morte de uma jovem técnica de laboratório, Daria Shipilova, de 28 anos, que trabalhava num instituto de investigação dedicado ao estudo da peste em Irkutsk, na Sibéria. A morte ocorreu após uma pneumonia grave e gerou uma avalanche de especulações, rumores, desmentidos, rectificações e comunicados contraditórios. Num mundo que ainda sofre de stress pós-traumático epidemiológico desde 2020, bastou ouvir a expressão “peste pneumónica” para milhares de pessoas começarem mentalmente a procurar máscaras cirúrgicas esquecidas numa gaveta.

O mais curioso é que a própria história parece construída para alimentar a imaginação colectiva. Existe uma investigadora jovem, um laboratório que estuda agentes patogénicos perigosos, uma morte repentina, autoridades que dizem uma coisa e depois corrigem o que disseram. Existem hospitais sob observação e centenas de contactos monitorizados. Falta apenas uma banda sonora inquietante e teríamos material suficiente para uma série de sucesso numa plataforma de streaming. Mas a realidade, felizmente, costuma ser menos cinematográfica do que os nossos medos.

A primeira observação importante é que a peste nunca desapareceu. Esta afirmação tem o mesmo efeito psicológico que descobrir que um dinossauro continua vivo numa floresta remota. A maioria das pessoas imagina a peste como um capítulo encerrado da História, ao lado das armaduras medievais, dos castelos sitiados e das sangrias terapêuticas. Contudo, a bactéria “Yersinia pestis” continua presente em várias regiões do mundo, sobrevivendo em populações de roedores selvagens e nas pulgas que os acompanham. O desaparecimento da peste foi, na verdade, uma ilusão semântica. O que desapareceu foram as grandes pandemias devastadoras. A bactéria permaneceu.

William McNeill, em “Plagues and Peoples”, observava que as doenças infecciosas acompanham a humanidade com uma fidelidade que muitos amigos não conseguem igualar. Podem recuar, mudar de intensidade e parecer derrotadas durante décadas, mas raramente desaparecem completamente. São hóspedes silenciosos da História. No caso concreto da peste pneumónica, existe uma diferença particularmente importante.

Ao contrário da forma bubónica clássica, associada aos famosos bubões, a variante pneumónica instala-se nos pulmões e pode transmitir-se de pessoa para pessoa através de partículas respiratórias. É essa característica que provoca especial atenção das autoridades de saúde. Não porque seja inevitavelmente uma ameaça global, mas porque constitui uma forma potencialmente mais contagiosa da doença.

Aqui entra em cena um elemento muito menos emocionante do que os cenários de desastre que é a ciência. Enquanto as redes sociais procuravam construir a próxima pandemia mundial, os epidemiologistas fizeram aquilo que devem fazer. Contaram casos. Identificaram contactos. Recolheram amostras. Compararam resultados laboratoriais. Em suma, dedicaram-se à ingrata tarefa de substituir especulações por evidências.

A Organização Mundial de Saúde adoptou desde o princípio uma postura extraordinariamente prudente. O porta-voz Christian Lindmeier afirmou que, com base nas informações disponíveis, o risco era considerado “moderado a baixo” para Irkutsk, “baixo” para a Federação Russa e “muito baixo” para a região europeia da OMS. Acrescentou ainda que nenhum dos contactos identificados apresentava sintomas compatíveis com a doença e que os testes realizados não tinham detectado agentes patogénicos perigosos.

Convém repetir esta parte porque ela tem o inconveniente de ser menos sensacionalista do que os títulos alarmistas. Nenhum contacto apresentou sintomas e testou positivo para agentes infecciosos perigosos. O risco internacional foi classificado como muito baixo. Naturalmente, este tipo de informação dificilmente se torna viral. A serenidade raramente gera audiências.

Vivemos numa época peculiar em que um rumor se desloca à velocidade da luz enquanto a confirmação científica avança ao ritmo de um funcionário das finanças próximo da hora de almoço. O rumor chega primeiro, fala mais alto e parece sempre mais interessante. A questão central acabou por não ser apenas médica. Tornou-se também política.

Os relatos contraditórios provenientes da Rússia contribuíram para a confusão. Algumas declarações iniciais sugeriam uma ligação à peste pneumónica. Posteriormente, as autoridades passaram a referir-se apenas a uma pneumonia de origem desconhecida. A OMS solicitou mais informações e insistiu na necessidade de transparência. O próprio director-geral da organização sublinhou a importância de uma partilha rápida e completa de dados ao abrigo dos Regulamentos Sanitários Internacionais.

A palavra “transparência”, aliás, adquire frequentemente uma dimensão quase poética quando aplicada a regimes pouco conhecidos pela sua paixão pelos vidros limpos. A pandemia da Covid-19 deixou uma herança duradoura.

Hoje, qualquer informação relacionada com um laboratório, um agente patogénico e uma morte inesperada desencadeia imediatamente associações mentais inevitáveis. O mundo aprendeu, da forma mais dolorosa possível, que ignorar sinais precoces pode ser extremamente caro. Ao mesmo tempo, também aprendeu outro ensinamento importante de que nem todos os alertas conduzem a catástrofes.

É precisamente por isso que existe vigilância epidemiológica. A vigilância não serve para anunciar o fim do mundo. Serve para garantir que o fim do mundo não chega sem aviso. O professor Miguel Castanho, bioquímico e investigador português, salientou um aspecto particularmente relevante.

A bactéria da peste não circula normalmente em ambientes hospitalares nem está sujeita à enorme pressão selectiva criada pelo uso intensivo de antibióticos. Por essa razão, continua geralmente sensível a muitos dos antibióticos convencionais actualmente disponíveis. Esta realidade diferencia profundamente a peste de muitos outros agentes infecciosos modernos, que desenvolveram níveis preocupantes de resistência terapêutica.

É uma ironia deliciosa da biologia. Uma das doenças mais temidas da História revela-se, em vários aspectos, mais vulnerável aos tratamentos actuais do que muitos microrganismos relativamente banais encontrados em hospitais modernos. Em “The Great Influenza”, o historiador John M. Barry recorda que o verdadeiro poder das epidemias não reside apenas nos micróbios. Reside igualmente no medo. O medo altera comportamentos, influencia decisões políticas, perturba economias e molda sociedades inteiras.

O caso de Irkutsk demonstra precisamente isso. Uma única morte, cuja causa permanece sob investigação, foi suficiente para desencadear preocupações internacionais, acompanhamentos diplomáticos, monitorização por parte dos Estados Unidos, atenção das autoridades chinesas e vigilância do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo das Doenças. Mas seria incorrecto ridicularizar essa preocupação.

A preocupação é saudável. O alarmismo é que costuma ser contraproducente. Existe uma diferença fundamental entre vigilância e pânico. A vigilância exige atenção. O pânico exige imaginação. E a imaginação humana, quando estimulada por palavras como “peste”, “laboratório” e “Sibéria”, raramente conhece limites.

Outro elemento interessante deste episódio prende-se com a existência de institutos dedicados ao estudo da peste. Para muitas pessoas, a simples presença de um laboratório antipeste parece suspeita. Contudo, essa reacção revela uma curiosa inversão lógica. O laboratório existe precisamente porque a doença continua a existir. Estudar agentes patogénicos não cria os agentes patogénicos. Pelo contrário, ajuda a compreender os riscos que representam.

Seria semelhante a encerrar quartéis de bombeiros na esperança de eliminar incêndios. A prevenção científica raramente beneficia do mesmo entusiasmo mediático que as crises que procura evitar.

Há ainda uma dimensão geopolítica impossível de ignorar. Sempre que uma situação de saúde pública surge num contexto internacional marcado por tensões diplomáticas, a interpretação dos acontecimentos torna-se inevitavelmente mais difícil. A confiança é um recurso tão importante quanto os antibióticos. Quando existe confiança entre instituições, a informação circula rapidamente. Quando a confiança escasseia, multiplicam-se as suspeitas, os rumores e as teorias alternativas.

É por isso que a insistência da OMS na transparência assume uma importância tão grande. Não se trata apenas de uma questão científica. Trata-se de uma questão de credibilidade institucional. Até ao momento, contudo, os factos disponíveis apontam numa direcção relativamente tranquilizadora.

Não existem sinais de transmissão sustentada entre pessoas. Não existem cadeias documentadas de contágio. Não existem casos secundários confirmados. Não existe sequer uma confirmação oficial de que a peste tenha sido a causa da morte da investigadora.

Em consequência, talvez a pergunta inicial mereça uma resposta simples. Devemos estar preocupados? Sim, na medida em que uma sociedade responsável deve acompanhar qualquer potencial ameaça sanitária. Não, na medida em que os dados actualmente disponíveis não justificam cenários de catástrofe. Uma sociedade madura distingue vigilância de histeria.

Infelizmente, as sociedades modernas nem sempre demonstram grande talento para essa distinção. Talvez porque o apocalipse sempre vendeu melhor do que a normalidade. Talvez porque a prudência raramente conquista audiências. Ou talvez porque continuamos fascinados pela ideia de que a História regressa ciclicamente para nos assustar.

Desta vez, contudo, tudo indica que a velha bactéria medieval encontrou pela frente algo que os seus antepassados nunca tiveram de enfrentar que são sistemas internacionais de vigilância, antibióticos eficazes, laboratórios avançados e uma comunidade científica que, apesar de todas as limitações humanas, continua a fazer o trabalho ingrato de separar factos de fantasias. E isso, por enquanto, é uma notícia bastante melhor do que qualquer manchete alarmista.

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Original title: A peste, a Sibéria e o apocalipse

Translated from pt. Original title shown above.

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